12/03/2007

As criancinhas...

Texto de Miguel Carvalho:

Criancinhas

A criancinha quer Playstation. A gente dá.

A criancinha quer estrangular o gato. A gente deixa.

A criancinha berra porque não quer comer a sopa. A gente elimina-a da ementa e acaba tudo em festim de chocolate.

A criancinha quer bife e batatas fritas. Hambúrgueres muitos. Pizzas, umas tantas. Coca-Colas, às litradas. A gente olha para o lado e ela incha.

A criancinha quer camisola adidas e ténis Nike. A gente dá porque a criancinha tem tanto direito como os colegas da escola e é perigoso ser diferente.

A criancinha quer ficar a ver televisão até tarde. A gente senta-a ao nosso lado no sofá e passa-lhe o comando.

A criancinha desata num berreiro no restaurante. A gente faz de conta e o berreiro continua.
Entretanto, a criancinha cresce. Faz-se projecto de homem ou mulher.

Desperta.
É então que a criancinha, já mais crescida, começa a pedir mesada, semanada, diária. E gasta metade do orçamento familiar em saídas, roupa da moda, jantares e bares.
A criancinha já estuda. Às vezes passa de ano, outras nem por isso. Mas não se pode pressioná-la porque ela já tem uma vida stressante, de convívio em convívio e de noitada em noitada.

A criancinha cresce a ver Morangos com Açúcar, cheia de pinta e tal, e torna-se mais exigente com os papás. Agora, já não lhe basta que eles estejam por perto. Convém que se comecem a chegar à frente na mota, no popó e numas férias à maneira.

A criancinha, entregue aos seus desejos e sem referências, inicia o processo de independência meramente informal. A rebeldia é de trazer por casa. Responde torto aos papás, põe a avó em sentido, suja e não lava, come e não limpa, desarruma e não arruma, as tarefas domésticas são «uma seca».

Um dia, na escola, o professor dá-lhe um berro, tenta em cinco minutos pôr nos eixos a criancinha que os papás abandonaram à sua sorte, mimo e umbiguismo. A criancinha, já crescidinha, fica traumatizada. Sente-se vítima de violência verbal e etc e tal. Em casa, faz queixinhas, lamenta-se, chora. Os papás, arrepiados com a violência sobre as criancinhas de que a televisão fala e na dúvida entre a conta de um eventual psiquiatra e o derreter do ordenado em folias de hipermercado, correm para a escola e espetam duas bofetadas bem dadas no professor «que não tem nada que se armar em paizinho, pois quem sabe do meu filho sou eu».

A criancinha cresce. Cresce e cresce. Aos 30 anos, ainda será criancinha, continuará a viver na casa dos papás, a levar a gorda fatia do salário deles. Provavelmente, não terá um emprego. «Mas ao menos não anda para aí a fazer porcarias».

Não é este um fiel retrato da realidade dos bairros sociais, das escolas em zonas problemáticas, das famílias no fio da navalha? Pois não, bem sei. Estou apenas a antecipar-me. Um dia destes, vão ser os paizinhos a ir parar ao hospital com um pontapé e um murro das criancinhas no olho esquerdo. E então teremos muitos congressos e debates para nos entretermos.

7 comentários:

Carla disse...

Ora aí está! O texto é excelente, a tua conclusão também. Reflecte exactamente o que eu penso. Um beijinho e uma boa semana!

Zanita disse...

E não é k é mesmo assim????

Por vezes é o agradecimento k os pais levam por criarem uma criança....mimos a mais só estragam

Sandrocas disse...

Pois... é! É mesmo assim!


Beijinhos

Anónimo disse...

Lamento discordar profundamente. Mesmo que em momentos os factos sejam esses, E até podessem apontar para esse fim. É preciso não generalizar, não entrar em pânico porque 100 dos 120.000 professores levou um par de estalos. O texto é damagógico e o autor preguiçoso. Relatou, é importante para a reflexão. Mas já repararam que não aponta soluções ? São os mimos, o real problema? Vamos a ter seriedade. já agora : É ele "pai". Não tenhamos medo de dar e demonstrar amor/mimos aos nossos filhos.

turbolenta disse...

Está aí muita coisa certa. Mas nem tudo
Cada criança é um caso.
Os tempos modernos ajudam a que se dê uma educação mais liberal. Ela nem sempre é bem entendida e utilizada da melhor maneira.
A criança tem que ser estudada e o procedimento dos pais não pode ser 100% permissivo. Também têm de se contrariar quando for caso disso, mas explicar-lhe os porquês das coisas.Calmamente, sem grandes guerras e atitudes mais agressivas.
Educar, e bem, é mesmo muito difícil.
bjs
boa semana
boa gravidez

Grey´s disse...

Pois! Bom texto de facto, reflecte exactamente o que se passa um pouco por toda a parte. E sinceramente não vejo luz ao fundo do tunel, acho que não vai melhorar.

Bjnhos e boa sorte com a gravidez

SCAS disse...

Concordo que não devemos dar tudo, que é importante aprender a lutar pelas coisas e a fazer por merecê-las, sob pena de acontecer como em algumas zonas de àfrica que deixaram pura e simplesmente de cultivar o que seja, porque a ajuda humanitária há-de chegar (mesmo que se morra de fome antes disso). Mal comparado, acho que é assim... Dar o peixe só raramente, o importante é mesmo ensinar a pescar. E é de pequenino que se começa... Fui fruto de uma educação assim e confesso que me revoltei muitas vezes na infância e adolescência, mas agora reconheço que foi o melhor e espero ser capaz de educar assim o(s) meu(s) filho(s).
Beijinhos e boa semana