26/04/2007

25 de Abril

MÁGOA, TRISTEZA, DESILUSÃO...De saber que há gente por aí que nunca explicou aos filhos e aos netos o que foi o 25 de Abril. Se agora que só se passaram 33 anos muita gente já esqueceu, que será daqui a 50?
Eu quero ensinar aos meus filhos o que se passou, para que nunca mais se volte a passar por uma ditadura.
Talvez porque Fernando Salgueiro Maia foi amigo do meu pai, amigo de infância, da terra onde nasceram, que foi ficando ao longo dos anos, talvez por isso eu saiba tão bem o que foi o 25 de Abril.
Deixo-vos aqui uma entrevista com ele:

Salguero Maia.jpg

Entrevista Histórica ao Capitão Salgueiro Maia

Salgueiro Maia nasceu em Castelo de Vide em 1944. Em 1964 ingressa na Academia Militar, sendo promovido a capitão em 1970. Em 25 de Abril avança sobre Lisboa obrigando à rendição Marcelo Caetano. Faleceu prematuramente em 1992.

Clube de Jornalismo – O que o levou a aderir ao movimento das forças armadas?
Salgueiro Maia – Porque vivíamos numa ditadura e os nossos jovens eram enviados para a guerra, era preciso mudar esta situação.
C.J. – O movimento fez alguns contactos com as rádios nacionais. De que modo é que elas contribuíram para o sucesso dos planos elaborados?
S.M. – Serviram de sinal para todos os implicados no movimento. Às 22:55h passou na rádio a canção de Paulo de Carvalho «E Depois do Adeus», foi o sinal para assaltarem o Rádio Clube Português. À meia-noite e vinte toca a canção de Zeca Afonso «Grândola, Vila Morena». É o segundo sinal, o M.F.A. estava em marcha, já nada o podia travar.
C.J. – A seguir às rádios qual era o próximo local a controlar?
S.M. – Era o aeroporto de Lisboa que ficou sobe o nosso poder às 4:20h.
C.J. – Nesta altura o capitão ainda estava em Santarém ou já tinha partido?
S.M. – Deixei a Escola Prática de Cavalaria em Santarém às 3:30h com o objectivo de cercar o Terreiro do Paço.
C.J. – A que horas chegou ao Terreiro do Paço?
S.M. – Cheguei por volta das seis da manhã.
C.J. – A partir desta altura a sua acção confunde-se com a própria história do 25 de Abril. Concorda com esta afirmação?
S.M. – O meu papel foi importante pois fui o militar que esteve exposto à maior parte das situações de perigo.
C.J. – Entretanto a PIDE toma conhecimento do movimento. Qual foi a atitude desta polícia perante a situação?
S.M. – Telefonaram a Marcelo Caetano aconselhando-o a refugiar-se no Quartel do Carmo.
C.J. – Entretanto tiveram problemas com outras forças militares fiéis ao regime?
S.M. – Sim, tivemos alguns confrontos mas a maior parte dessas forças acabaram por aderir às Forças Armadas.
C.J. – Quando o Capitão se dirige ao Quartel do Carmo já se vivia na rua um ambiente de revolução. Como o descreve?
S.M. – Era um ambiente indescritível, os cravos vermelhos a ser enfiados nos canos das G3, os populares a vitoriavam os soldados. Quando cheguei ao Quartel do Carmo vi-me envolvido por uma multidão que enrouquecia a cantar o Hino Nacional. Foi o momento mais digno da minha vida.
C.J. – Qual foi a sua acção junto do Quartel do Carmo?
S.M. – Intimei a guarnição que lá se encontrava a render-se e a entregar Marcelo Caetano. A minha ordem não foi obedecida e então abri fogo sobre o edifício. Entrei lá dentro e dialoguei com o Presidente do Conselho. Mais tarde chega o General Spinola e Marcelo Caetano foi enviado para o asilo.
C.J. – A partir de que momento considera a revolução ganha?
S.M. – Após a rendição de Marcelo Caetano e a sua saída do Quartel.
C.J. – A Junta de Salvação Nacional participou e ditou aos portugueses as leis da revolução. Como se sentiu a partir desse momento?
S.M. – Senti que eu e os meus colegas tinham sido relegados para segundo plano, nós que tínhamos arriscado tudo a partir desse altura ficamos na sombra.


2 comentários:

Ana disse...

No 25 de Abril ja andava na escola. Para mim que nao percebia o que se passava foi uma mistura de medo e curiosidade. Os dias que se seguiram foram estranhos, magicos,lindos.
Imagina que so depois do 25 de Abril soube que o meu avo era militante do PS, nessa altura nem sequer sabia o que era o PS, alias, nao sabia nada de nada.

Sónia e MI disse...

Eu ainda não estava por cá, não faço ideia o que seria viver em ditadura, contudo os meus pais dizem-me que nunca tiveram medo de falar fosse o que fosse, e que por vezes existem grandes exageros ... não sei, não faço ideia. Contudo o que me pergunto sempre que falam na revolução é o facto de se não existissem interesses militares em evitar que os nossos fossem combater, se alguma coisa teria sido feita, porque se foi apenas pela ditadura, nós hoje somos muito fracos mesmo, é que o regime democrático em que vivemos hoje, deixa muito a desejar...
Existem assuntos como a licenciatura do Sócrates por exemplo que caíu em "saco roto" e pergunto eu porque seria? Como este muitos outros assuntos que são abafados. Lamentávelmente temos este espirito de inércia perante o que faz tanta confusão, e deixamo-nos ser manipulados por um governo que nada governa.
Há já uns anos que acho que vivemos num regime democrático mto ditatorial, afinal são sempre os que estão no poleiro que levam a melhor.

Festejo o 25 de Abril não pela ideologia politica mas sim pela liberdade que foi dada a essa geração e ás seguintes de se exprimirem , de existirem mais direitos, mas festejo em silêncio, porque ainda era excluida do testamento se fizesse mto alarido LOL

BEIJINHOS :))